Em resumo: para Richard Rumelt, uma boa estratégia responde a um desafio específico. Ela combina um diagnóstico do que está acontecendo, uma política orientadora para lidar com o obstáculo e ações coerentes entre si. Uma lista de metas ambiciosas, por si só, ainda não diz como avançar.

“Ser referência no mercado” pode ser um desejo legítimo. Mas, se a pergunta é o que fazer amanhã, a frase oferece pouca ajuda. Referência para quem? Em que assunto? O que impede esse reconhecimento hoje? Que escolhas aumentariam as chances de ele acontecer?

Essa distância entre ambição e ação é o tema que mais me interessou em Estratégia boa, estratégia ruim (Good Strategy/Bad Strategy), de Richard Rumelt. O livro ajuda a distinguir uma direção estratégica de um conjunto de objetivos bem apresentados. Minha leitura acrescenta uma aplicação: um posicionamento profissional também precisa enfrentar um obstáculo real e orientar decisões.

Qual é a ideia central do livro?

Rumelt descreve a boa estratégia como uma resposta específica e coerente a uma dificuldade importante. Ela não depende de prever tudo. Depende de identificar o problema que merece concentração de energia e organizar as ações em torno dele.

Nas minhas anotações, isso apareceu como uma correção de hábito: muitas vezes chamamos de “estratégia” uma carta de desejos. Queremos crescer, vender mais, ser conhecidos, elevar preço e produzir conteúdo. Nada disso mostra como essas mudanças acontecerão ou quais delas têm prioridade.

Uma boa estratégia começa ao perguntar o que está de fato acontecendo. Sem esse passo, podemos trabalhar muito para ampliar um problema que ainda não compreendemos.

O núcleo da boa estratégia em três partes

O chamado núcleo da estratégia oferece uma forma simples de testar se existe uma lógica por trás do plano.

01Diagnóstico

Qual é o obstáculo central? O diagnóstico organiza fatos dispersos e identifica o que precisa mudar.

02Política orientadora

Qual será a abordagem para enfrentar esse obstáculo? Ela cria um critério para escolher e recusar caminhos.

03Ações coerentes

Quais movimentos se reforçam mutuamente? A estratégia ganha forma quando recursos e decisões trabalham na mesma direção.

As três partes se exigem. Um diagnóstico sem uma abordagem vira constatação. Uma abordagem sem ações vira slogan. Muitas ações sem diagnóstico podem produzir movimento sem progresso.

Por que uma lista de metas pode ser uma estratégia ruim?

Metas dizem o que desejamos alcançar. Elas não explicam o caminho nem revelam o desafio que torna o resultado difícil. Rumelt critica planos que acumulam objetivos e iniciativas sem uma resposta coerente ao problema central.

Imagine uma profissional experiente que quer “aumentar autoridade”, “publicar mais”, “subir o ticket” e “receber convites para palestrar”. Essas quatro metas podem soar bem juntas. Mas talvez o mercado ainda não consiga explicar em que ela é especialmente boa. Se esse for o obstáculo, publicar mais mensagens genéricas pode ampliar a exposição sem melhorar a associação com o seu nome.

A estratégia exigiria outra pergunta: qual percepção precisa existir antes que essas metas façam sentido? A resposta pode levar a escolhas incômodas, como concentrar temas, abandonar uma mensagem ampla demais ou recusar oportunidades que reforçam a associação errada.

O que isso muda no posicionamento profissional?

Posicionamento costuma ser tratado como uma frase, uma estética ou um nicho. Para a Black Boutique, ele é um mecanismo de percepção: o conjunto de escolhas que ajuda o mercado a concluir por que determinado nome deve ser lembrado e escolhido.

Aplicar Rumelt a esse trabalho significa começar pelo diagnóstico. O problema é pouca visibilidade? Falta uma ideia reconhecível? Há provas de competência que não estão públicas? As pessoas associam o nome a um trabalho que já não representa o próximo movimento? Cada resposta pede decisões diferentes.

Veja um exemplo hipotético. Um consultor diz que precisa “crescer no LinkedIn”. Ao investigar, descobre que seus melhores clientes chegam por indicação, mas o indicam como “um consultor geral” porque não sabem nomear seu diferencial. A política orientadora pode ser tornar uma especialidade específica fácil de reconhecer. As ações coerentes incluem selecionar casos que comprovem essa especialidade, ajustar a apresentação do trabalho e publicar análises que mostrem o tipo de decisão que ele ajuda a tomar. A frequência de posts passa a servir à posição escolhida, em vez de ser a própria estratégia.

Da ambição à escolha
Obstáculo realDireção escolhidaMovimentos coerentes

“Ser referência” descreve uma ambição. O caminho começa quando cada parte pode ser explicada e testada.

Um exercício para aplicar a leitura

Escolha um objetivo importante para o valor do seu nome e responda, sem linguagem de apresentação comercial:

  1. Diagnóstico: o que impede a percepção desejada hoje? Qual evidência sustenta essa leitura?
  2. Política orientadora: que tipo de posição você vai reforçar? Que alternativas deixará de perseguir por enquanto?
  3. Ações coerentes: quais três movimentos do próximo ciclo tornam essa posição mais visível e crível?

Se as respostas não alteram nenhuma decisão, talvez o plano ainda esteja no campo das intenções. Esse é um teste útil do livro: uma estratégia precisa ajudar a escolher quando surgem oportunidades concorrentes.

Vale a pena ler Estratégia boa, estratégia ruim?

O livro é especialmente útil para quem participa de decisões de negócio, lidera projetos ou percebe que seus planos contêm muitas iniciativas e pouca prioridade. Ele oferece uma maneira de examinar a coerência entre o problema escolhido e as ações propostas.

Não há garantia de que um diagnóstico esteja certo. Rumelt trata estratégia como julgamento diante de incerteza, não como uma lista de passos que elimina risco. Isso torna ainda mais importante voltar às evidências e ajustar o plano quando o mundo responder.

Fontes e método: este artigo parte das anotações de leitura da Black Boutique e da apresentação do livro pela editora. Os exemplos de posicionamento profissional e a aplicação à percepção de valor são interpretações da Black Boutique, não exemplos retirados do livro.